domingo, 15 de agosto de 2010

Embale seus destroços. O caminhão de lixo espacial vem aí

Empresa americana afirma que, se tudo der certo, teremos em breve uma frota de naves que coletarão os quase 2,5 mil detritos que orbitam a Terra.

Esqueça a realidade por um minuto e tente enxergar uma solução elegante para o problema do lixo espacial. Imagine que cada pedaço de lixo que flutua no espaço é como uma borboleta que pode ser suavemente caçada com uma rede, evitando colisões.

O fato é que tal cenário está bem perto da realidade. Esse é o conceito por trás do Eliminador Eletrodinâmico de Escombros (EDDE, na sigla em inglês), um veículo espacial em desenvolvimento pela Star Inc, com financiamento da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada em Defesa (Darpa).

Jerome Pearson, presidente da Star Inc, apresentou a ideia do que define como “um caminhão de lixo espacial” na sexta-feira (13/8), durante a conferência anual Space Elevator, em Redmond (EUA). Pearson foi um dos primeiros a propor a ideia da construção de um elevador espacial: foi um artigo escrito por ele em 1975 que inspirou o elevador espacial descrito por Arthur C. Clarke em seu livro “The Fountains of Paradise”. A publicação ajudou a popularizar a ideia.

Acontece que o lixo espacial é um dos maiores obstáculos à construção de um elevador espacial.

O veículo EDDE proposto por Pearson virá equipado com cerca de 200 redes, semelhantes às de caçar borboletas, que se estenderão para coletar resíduos em baixa órbita terrestre (Low Earth Orbit, ou LEO). Em sete anos, 12 veículos EDDE poderiam capturar todos os 2.465 objetos com mais de 2 kg que já foram identificados e flutuam na LEO, afirma Pearson.

Depois que capturar o objeto, o EDDE poderá fazer diversas coisas com ele. O caminhão poderia despejar o resíduo sobre o Pacífico Sul, onde haveria pouca probabilidade de se chocar com algo importante.

O EDDE também poderia largar o objeto numa órbita mais próxima da Terra, para que ficasse fora do caminho e, com o tempo, caísse.

Reciclagem no espaço
Melhor ainda: ele poderia ser reutilizado no espaço para construir diversas estruturas úteis, propôs Pearson. “Você estaria minerando alumínio em órbita”, disse. Quatro EDDEs poderiam coletar metal e outros materiais suficientes para construir uma estrutura do tamanho de um galpão, que poderia ser usado para abrigar tripulação ou armazenar equipamentos, disse.

Pearson reconhece que há inúmeros desafios para colocar o EDDE em operação. Por exemplo, com 12 EDDEs ou mais zanzando pelos céus, “nós precisaremos de um controle de tráfego espacial”, ponderou. Tal como a FAA, a agência que administra a aviação nos Estados Unidos e que já começou a pesquisar as formas com que poderia monitorar o espaço, exigindo veículos como os EDDEs para registrar planos de voo, afirmou.

Outra questão possivelmente relevante é que, embora Pearson proponha o uso de EDDEs para coletar lixo, eles poderiam ser usados potencialmente para propósitos mais sinistros, e que já deixa a China em alerta. Por exemplo, um EDDE poderia ser usado por propósitos militares para remover um satélite de órbita.

Por causa dessas preocupações, a Space Inc. vem tentando transferir o projeto para a Nasa no lugar da Darpa, que faz parte do Departamento de Defesa dos EUA, disse Pearson.

Nações Unidas
Ele vislumbra uma época em que EDDEs poderão operar sob o controle das Nações Unidas, que por sua vez poderia cobrar taxas de empresas e países que lançam objetos ao espaço para cobrir os custos da coleta de resíduos espaciais.

A Star Inc. tem feito alguns testes e espera fazer um voo experimental em 2013. Se tudo correr de acordo com o planejado, uma missão completa de remoção de lixo poderia ocorrer em 2017, acredita.

Cerca de 30 pessoas participaram da conferência Space Elevator na sexta-feira. Entre elas estavam Yuri Artsutanov, um engenheiro russo nascido em 1929 que publicou um artigo pioneiro sobre elevador espacial em 1960, mas que não teve divulgação fora da então União Soviética.

Um elevador espacial poderia ser uma longa corda feita de nanomateriais, esticada desde a Terra até um contrapeso em altitude geossíncrona, cerca de 35.400 quilômetros acima da superfície. Ônibus, como cabines de elevador, viajariam para cima e para baixo, levando pessoas e objetos para o espaço.

Dois anos atrás, um palestrante da conferência causou alvoroço quando apontou para o grande problema representado pelo lixo espacial, afirmando que em algum momento todo pedaço de lixo e todo satélite colidiria com o elevador. “Todos, sem exceção”, disse Ivan Bekey, um ex-cientista da Nasa que agora dirige a empresa Bekey Designs.

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