A contribuição das mídias de áudio e vídeo modernas.
A restauração e a preservação são elementos chaves na exposição de filmes vindos dos acervos dos estúdios, para a apreciação das gerações vindouras. Os recursos atuais vêm contribuindo muito para a concretização desse objetivo.
Restauração e preservação são as duas palavras mais importantes do dicionário dos preservacionistas, e são duas ações não excludentes, que se fazem presentes há muitas décadas, para nos assegurarmos de que nada artístico criado nos campos da música gravada e do cinema sejam esquecidos ou impedidos de passar para as próximas gerações.
Em ambos os casos é fácil perceber que o momento em que o ato de criação do artista é capturado, ele se torna singular e difícil de ser repetido. Daí a importância da preservação de qualquer obra. E, se para preservar, é preciso restaurar, deve-se lançar mão do que se tem disponível, e repeti-la quando meios mais modernos e eficientes estiverem ao alcance. E aqui não se trata de nenhum tipo de obsessão pela restauração, mas sim o fato de que processos restauradores mais recentes oferecem recursos que os mais antigos não ofereciam.
Existe, e é bom que se enfatize, uma diferença significativa entre preservação e restauração: a preservação é a manutenção rotineira de uma obra, que se consegue por uma cópia 1:1 pura e simples, enquanto que restauração é todo e qualquer processo de recuperação da obra que, por motivos diversos, se deteriorou ao longo do tempo.
A restauração é sempre seguida de preservação, ou seja, uma vez terminada, a obra precisa ser copiada, usando-se um meio adequado, de tal modo que o original seja de novo resguardado. O preservacionista é também um arquivista, e a ele cabe pesquisar todo o material de fonte armazenado pelos estúdios.
E ninguém pense que é só a informação analógica que necessita de cuidados! A mídia digital também pode sofrer os males do tempo e necessita a devida atenção. Não faz tanto tempo assim, que a gravadora alemã Deustche Grammophon descobriu que as fitas magnéticas contendo gravações digitais estavam se apagando, e a partir daí, partiu para cópia do que foi possível ainda recuperar. Se a gravação digital é feita em disco rígido, é preciso copiar o conteúdo para outro disco rígido ou mídia ótica.
O problema maior da preservação é que quase ninguém consegue determinar com precisão qual seria o meio ideal para aumentar a longevidade do material registrado. Em função disso, é comum estúdios de cinema, por exemplo, terem usado formas de duplicação do original, as chamadas matrizes de preservação.
A preservação do cinema é complexa!
O cinema registra imagens em seqüência, acompanhadas ou não de áudio. A película de filme tem uma base (suporte) no qual a emulsão do material fotográfico é depositada. Ao longo do tempo, esta base mudou de composição química, trazendo consigo vantagens e desvantagens.
Devido à instabilidade da base usada para o filme de cinema, os primeiros estúdios tomaram o cuidado de fazer uma cópia de contato em papel fotográfico de cada fotograma. E o interessante é que, em plena era de mídia digital, essas cópias permitiram a recuperação completa de filmes feitos nos primórdios do cinema mudo. A passagem da cópia em papel para película novamente tem sido um trabalho feito principalmente pelos técnicos da Biblioteca do Congresso Norte Americano, e por muitas organizações e entidades sem fim lucrativo.

A instabilidade química da película de cinema
Os estúdios antigos que não fizeram estas preservações em papel perderam todos os seus filmes. O motivo é que a película cinematográfica é quimicamente instável.
Até a década de 1950, a indústria cinematográfica fez uso de película à base de nitrato, tanto para filmagem quanto para cópias de exibição. O composto usado na fabricação do filme de celulóide, conhecido como nitrocelulose, é altamente inflamável. Uma ilustração da periculosidade deste tipo de película é vista numa cena do filme Cinema Paradiso.

Desnecessário dizer que, para os preservacionistas, lidar com a recuperação de material de cinema à base de nitrato é como mexer com um estopim de pólvora! Além disso, a tendência do nitrato é reagir com o oxigênio do ar, formando ácido nítrico (HNO3), que ajuda a corroer o que sobrou de filme.

Pedaço do negativo de nitrato de Steamboat Willie (primeiro filme sonoro dos estúdios Disney) em estado de decomposição, descoberto em 1934.
Para resolver de vez o problema de inflamabilidade do filme de nitrato, a indústria se voltou para a base de polímero de acetato, chamada de “safety film”. A combinação do ácido acético com a celulose forma o composto esterificado acetato de celulose, sintetizado ao fim do século 19. O filme de acetato de celulose evoluiu até a criação da base do triacetato de celulose, usado em filmes a partir do abandono das bases de nitrato. Este foi talvez um dos primeiros passos no sentido de aumentar a preservação de filmes, passando-os de nitrato para o “safety film”.
Os primeiros grandes estúdios a tomar esta iniciativa foram M-G-M e Disney. Além desses, Charles Chaplin e Harold Lloyd, produtores independentes e donos dos seus negativos de nitrato, fizeram o mesmo. Supostamente, esta nova base de filme deveria durar por muitos e muitos anos, sem se decompor!
A síndrome do vinagre
O que a indústria de cinema não sabia de início é que também a base de acetato tem seus próprios problemas. A sua decomposição se dá por hidrólise da ligação éster, que liga o acetato à celulose. Aqui cabe um pequeno esclarecimento aos não iniciados em química orgânica:
A formação de um éster se dá pela combinação do grupo hidroxila de um álcool com o grupo carboxila de um ácido orgânico. A estrutura genérica desta reação é dada pela equação: R1-COOH + HO-R2 D R1-COO-R2 + H2O. R1 E R2 são dois radicais orgânicos, de um ácido (-COOH) e de um álcool (-OH), respectivamente. A união desses dois grupos gera um éster, com a combinação dos elementos restantes (o hidrogênio H da carboxila e o HO da hidroxila) formando água como subproduto da reação.
Assim, grupamentos hidroxila são potencialmente capazes de reagir com ácidos orgânicos, mas a reação é também potencialmente reversível, como indicado na equação acima. Neste caso, o processo inverso é chamado de hidrólise.
A síndrome do vinagre ocorre por conta da reversão da reação de combinação do ácido acético com a base de celulose. Ou seja, a hidrólise do polímero regenera o ácido acético, dentro da lata de filme estocado. O ácido acético (CH2-COOH) é nada menos do que o nosso conhecido “vinagre”, usado na cozinha de casa. Quando o filme em decomposição é aberto, o cheiro característico deste composto é imediatamente reconhecido.
A presença de ácido acético na lata de filme é apenas o sinal de que a película está se deteriorando. A deterioração ocorre em várias etapas, e por isso quando mais cedo a síndrome for detectada, menos problemática será a recuperação dos originais contidos na lata. A estratégia do procedimento de restauração, nesses casos, pode ser feita caso a caso.
Descoramento da película colorida
Os filmes coloridos (negativos ou positivos) são alvo de outro tipo de problema: diversos tipos de corantes são usados na emulsão dos filmes. A estabilidade desses corantes é bastante variável. Idealmente, para que uma cor dure indefinidamente, ela deveria ter o mínimo de exposição à luz, o que no caso do cinema é impossível. A energia luminosa pode desestabilizar a estrutura eletrônica dos corantes, mudando assim a sua configuração original. O resultado, na prática, é o que se costuma chamar de “descoramento”, ou perda da cor ou do tom de cor, para outra cor diferente ou esmaecida.
Um filme de cinema usado anos para a projeção irá apresentar este tipo de descoramento, e o resultado na imagem vai depender de quais dos corantes originais irão se desestruturar eletronicamente mais rápido. Em geral, há uma predominância de tons de vermelho no filme descorado, resultante das perdas dos outros componentes, verde e azul, que ajudavam a composição da cor original.
No caso dos negativos, o descoramento irá depender do método de filmagem e do tipo de negativo usado. Os primeiros processos Technicolor usados no cinema usavam 2 (vermelho e verde) e depois 3 negativos (vermelho, verde e azul – RGB ou nas suas cores complementares ciano, magenta e amarelo – CMY, com o mesmo efeito). Este último processo de filmagem foi o que melhor reproduziu toda a gama de cores, por conter as três cores primárias que, uma vez combinadas em diferentes proporções, irão dar origem a todas as outras cores do espectro da luz visível.

Eventualmente, o filme Technicolor de três negativos (1932 a 1955) foi substituído por outro de apenas um negativo, contendo as três cores em camadas diferentes, a partir de seu lançamento em 1952. O antes e depois desta evolução é mostrado a seguir:
| Technicolor com 3 negativos CMY separados | Technicolor com 3 camadas RGB em um só negativo |
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A preservação do filme colorido
Outro aspecto a ser considerado, principalmente no sentido da preservação de um negativo colorido contendo as três camadas é a duplicação do mesmo naquilo que se chama tecnicamente de “preservation masters” (ou matrizes de preservação), também conhecidas como preservation negatives (negativos de preservação).
Este processo é, na verdade, o inverso da captura de imagem pela câmera: usando-se três filtros RGB, copia-se o negativo em três filmes monocromáticos separados. Estes filmes têm uma maior resistência aos efeitos do tempo e do armazenamento, podendo depois ser usados para recriar o negativo em sua totalidade. O tipo de filme usado é de grão muito fino e baixo contraste, para se obter os melhores resultados de durabilidade e preservação.
O método de separação de cores foi primeiramente demonstrado pelo físico escocês James Clerk-Maxwell, em 1861: tratava-se de um processo fotográfico de três instantâneos preto e branco, cada um com um filtro vermelho, verde e azul (RGB), que depois eram transformados em slides e projetados em uma lanterna, com o uso dos mesmos filtros de registro de cor.
Em 1906, este trabalho foi facilitado com o aparecimento do filme preto e branco pancromático, cuja emulsão contém substâncias sensíveis a todo o espectro de luz visível. Isto possibilitou a obtenção de imagens coloridas de alta qualidade, usando o processo de separação por filtros.
Quando a restauração da cor é necessária
Existem vários casos onde a informação da cor, mesmo separada, sofre com a ação do tempo. Os preservacionistas freqüentemente se defrontam com situações onde uma das matrizes de separação está deteriorada, ou uma das camadas do filme colorido único começa a esmaecer. A partir desse tempo, a estratégia de preservação implica em restauração dos elementos disponíveis primeiro.
Uma grande ajuda, neste sentido, tem sido dada desde algum tempo, pela aplicação de softwares desenvolvidos para compensar esta perda. Se o negativo da separação está, por exemplo, mais encolhido que os demais, um halo de cor será produzido depois da combinação das três cores. Hoje em dia, é possível compensar esse desvio passando as imagens primeiramente por um computador.
Em outros casos, a perda completa de uma das partes pode ser compensada digitalmente, e a partir daí a cor original ser totalmente restaurada. Isso foi feito para a cópia em DVD do filme “North by Northwest” (“Intriga Internacional”), do diretor Alfred Hitchcock, cujo negativo apresentava descoramento da camada azul (amarelo no formato CMYK). A restauração completa só foi feita depois, com o relançamento do filme em Blu-Ray.
O casamento das três camadas por processamento digital ou a compensação da cor esmaecida de um único negativo colorido (caso dos filmes rodados em Eastmancolor), através de sofisticados programas de computador, é um dos maiores avanços da tecnologia, para a preservação e reapresentação de filmes.
A preservação singular dos desenhos animados
Walt Disney ganhou a reputação, dentro dos anais do cinema, de ter sido o primeiro a produzir um filme de animação totalmente em Technicolor de três negativos. O seu proponente e fundador da Tecnhicolor, Herbert Kalmus, convencera Disney a usar o processo para a fotografia dos filmes de animação. De fato, em 1932, os estúdios lançaram “Flowers and Trees”, em technicolor, na sua série “Silly Simphonies”:

Os estúdios Disney ainda iriam trabalhar com o conceito de captura de três cores separadas, para outros de seus projetos. Um desenvolvimento de um processo específico para animação reuniu os técnicos da Technicolor com os do estúdio, resultando em um método revolucionário. É que a animação é feita com a exposição sucessiva de células desenhadas a mão, e fotografadas uma por uma. A idéia é prontamente aplicada, fotografando-se a mesma célula três vezes, com os filtros RGB. O método é chamado de “Technicolor por Exposição Sucessiva:

A técnica foi repetida com grande sucesso, para a produção do filme em Technirama de “A Bela Adormecida”:

Na edição em Blu-Ray de A Bela Adormecida é possível ver o resultado da recuperação deste tipo de fotografia. A exposição sucessiva coloca os fotogramas RGB no mesmo negativo. Assim, qualquer pequena alteração do mesmo irá afetar todos os segmentos indistintamente, e tornando quase que impossível o desalinhamento dos registros de cor, como acontece nos casos onde as matrizes de separação se deterioram de forma desigual.
Para as edições em discos para o consumidor e mesmo para a preservação de filmes, a vantagem de se trabalhar com o negativo original de câmera é óbvia: a resolução do negativo é muitíssimo maior do que a melhor cópia obtida com ele!
Para a recuperação de A Bela Adormecida, foi ainda possível escanear cada fotograma do negativo separadamente, à semelhança de filmes comuns no processo de telecine digital, porém recombinando os segmentos RGB para compor o fotograma colorido completo.
Dá para perceber, na captura da animação para vídeo, a vantagem do próprio negativo armazenar as matrizes de separação numa só seqüência. Porém, nada impede que o estúdio use esses fotogramas RGB para preservar o negativo separadamente, como em qualquer outro filme colorido.
A contribuição da mídia moderna: você vê (e ouve) muito mais do que devia!
Freqüentemente, filmes vindos de estúdios diversos contêm imagens com pouca nitidez ou resolução, o que nada tem a ver com o desgaste natural ou com a idade do filme. Com os recursos de hoje em dia, entretanto, é possível tornar esses filmes melhores do que os seus originais de câmera, em certos casos, com resultados até surpreendentes. Por causa disso, é bom que se diga, nem tudo que se vê em mídia moderna (DVD, Blu-Ray) é o reflexo do trabalho de restauração do original, mas o aprimoramento de um material que não teve na sua origem tanta qualidade assim!
Além disso, todos os filmes pré década de 1950 e a maioria dos filmes na década de 1970 nunca tiveram trilha original para exibição em som multicanal. No entanto, até mesmo filmes mono antigos são revitalizados com extensão para áudio em formato 5.1.
Uma situação digna de nota é a restauração de A Conquista do Oeste, pela Warner Brothers. O filme, originalmente produzido e rodado em Cinerama de três películas, teve cada uma delas escaneada digitalmente com 2 mil linhas de resolução, limpadas e unidas, de tal maneira, que os traços de separação das três películas não são mais vistos! O resultado pode ser visto em todo o seu esplendor, em sua versão em Blu-Ray, já comentada nesta coluna.
Para a preservação dos acervos, o armazenamento é a chave de tudo!
À baixa temperatura, tanto filme em base de nitrato quanto triacetato de celulose podem durar anos a fio ou até nem se deteriorar. Sem armazenamento adequado, filmes à base de nitrato simplesmente viram pó ou incendeiam.
Muitos estúdios, inclusive aqui no Brasil (caso da Atlântida Cinematográfica) perderam seus negativos de nitrato em incêndios, quando então a perda é de 100% do acervo.
O advento da televisão fez muitos estúdios acordarem. Até então, os filmes produzidos eram estocados após algum tempo de exibição e depois nunca mais viam a luz do dia. A televisão, precisando de material de cinema, mudou tudo. A necessidade de exibir filmes arquivados pelas emissoras de TV fez a maioria dos estúdios revirarem os seus arquivos. Daí para frente, a consciência de que a restauração é necessária para se preservar a memória, tornou-se peça chave no movimento preservacionista.


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